quinta-feira, 5 de abril de 2012

Samsara


Samsara pode ser descrito como o fluxo incessante de renascimentos através dos mundos.
Na maioria das tradições filosóficas da Índia, incluindo o Hinduísmo, o Budismo e o Jainismo, o ciclo de morte e renascimento é encarado como um fato natural. Esses sistemas diferem, entretanto, na terminologia com que descrevem o processo e na forma como o interpretam. A maioria das tradições observa o Samsara de forma negativa, uma condição a ser superada. Por exemplo, na escola Advaita de Vedanta hindu, o Samsara é visto como a ignorância do verdadeiro eu, Brahman, e sua alma é levada a crer na realidade do mundo temporal e fenomenal.
Já algumas adaptações dessas tradições identificam o Samsara (ou sa sâra, lit. "seu caminho") como uma simples metáfora.
No vedanta e na maioria das diversas tradições hindus que se fundamentam no Vedanta, o ciclo de transmigração da alma, ou samsara, não é feito exclusivamente do passado para o presente, numa temporalidade linear como a concebida pela cosmologia Ocidental. O ciclo pode se deslocar para qualquer posição no espiral do tempo e, de acordo com as diferentes inferências feitas pelos sábios, em quaisquer Brahmandas, ou universos da criação material, e em quaisquer tipos de corpos, entre as 8,4 milhões de espécies transmigráveis, podendo haver evolução ontogênica ou filogência, nos dois sentidos: elevação e degradação; de semi-deus a larva, de planta a ser humano, e vice-versa. De fato, as possibilidades de transmigração são infinitas.

Samsara como metáfora psicológica
À parte da cosmologia e mitologia tradicional de renascimento do corpo físico no budismo também pode-se compreender este ensinamento como o ciclo de morte e renascimento da consciência de uma mesma pessoa. Momentos de distração, anseios e emoções destrutivas são momentos em que a consciência morre para despertar em seguida em momentos de atenção, compreensão e lucidez. Nesta visão os agregados impuros, skandhas, são levados a diante para o momento seguinte em que a consciência toma uma nova forma.
A meditação budista ensina que por meio de cuidadosa observação da mente é possivel ver a consciência como sendo uma sequência de momentos conscientes ao invés de um contínuo de auto-consciência. Cada momento é a experiência de um estado mental específico: um pensamento, uma memória, uma sensação, uma percepção. Um estado mental nasce, existe e, sendo impermanente, cessa dando lugar ao próximo estado mental que surgir. Assim a consciência de um ser senciente pode ser entendida como uma série contínua de nascimentos e mortes destes estados mentais. Neste contexto o renascimento é simplesmente a persistência deste processo.
Esta explicação do renascimento como um ciclo de consciência é consistente com os demais conceitos budistas, como anicca (impermanência), dukkha (insafistatoriedade), anatta(ausência de identidade) e é possivel entender o conceito de karma como um elo de causa e consquências destes estados mentais.

quinta-feira, 29 de março de 2012

Let it go

As noites estão cada vez mais difíceis. 
Eu poderia começar uma lista interminável de lamentações, mas acho que tudo acaba ficando pequeno perto dessa espera que não acaba nunca. Eu espero por um sinal que me faça acreditar mais uma vez que tenho alguma relevância. De repente, é como se todas as armas que eu sempre pensei que me fizessem forte tivessem virado baladeiras nas mãos de uma criança impotente. Pedrinhas pra vencer esse monstro que vem me destruindo dia após dia, arrancando dolorosamente todas as lágrimas que eu tenho e em vão. 
Não faz efeito. E lá dentro, eu já me dei conta disso. Só não quero enxergar. Porque só quem já está derrotado implora como tenho implorado. Comecei a barganhar as coisas mais simples, um aviso de chegada, um sinal de vida. Já não há mais dignidade, meu orgulho escorreu entre os dedos que eu tenho afrouxado pra te deixar mais solto, tudo como você quer pra eu te manter aqui. Onde? Não sei. Você não está mais por perto. Não quer estar. 
É como se aquela meia dúzia de fotos com rostos estranhos que nós teimamos em colocar no nosso meio tivessem mais importância. Gritar pro mundo os lugares que você tem espalhado os seus cheiros parece ridiculamente precioso, é como se você precisasse de atenção, justamente essa atenção que eu tenho, ironicamente, implorado pra dar.
Porque não são aquelas fotos que acompanham cada decolagem e pouso naquele site desafiadoramente complicado. Elas não mandam mensagens duas, três, quatro vezes porque, afinal de contas, pode ser que as primeiras não tenham chegado, sabe como é a operadora. Mas não há resposta. Você aparece, vez por outra, mas não é pra mim. É praqueles rostos famintos naquelas fotos pequeninas.
Sou centauro, você sabe que eu sempre fui. Não pense que não compreendo esses sinais, anseios de liberdade e aventuras. Mas não consigo te deixar solto. Os dedos estão entreabertos, mas ainda seguram meu desejo e tentam desesperadamente mantê-lo a uma distância segura.

sexta-feira, 3 de fevereiro de 2012

Segunda sexta

Uma sexta-feira sequer é dia de pensar em grandes mudanças estimuladas por resoluções que martelaram nas nossas cabeças a semana inteira, o mês inteiro, o ano passado inteiro, uma existência inteira. Mas hoje tá com uma cara danada de segunda nesse sentido, e eu só consigo pensar em terminar de editar esse vídeo e sair pra ver o sol, passear por dentro da tarde, por baixo das árvores e por cima dessas marteladas todas. 
Queria algum lugar perto do mar, lugar-comum assim mesmo, mas falar sobre sol e mar a essa altura vai me levar para lugares perigosos de onde preciso fugir pelo menos até a próxima semana, ou, quem sabe, até a próxima existência. 
Queria ver o sol e entrar em alguma livraria como aquelas em Notting Hill, onde a gente se perde no meio de tantos títulos, autores e prateleiras, e pode escolher qualquer coisa porque tudo não passa de cinco, dez libras, é isso mesmo, queria escolher um livro bem bonito e colorido e... E novo! Completamente novo, um livro que me mostrasse coisas e pessoas que eu nunca sequer ouvi falar e acabe com as marteladas. Um livro diferente dos outros que se acumulam inúteis no meu quarto, que rode tão rápido e que seja tão colorido que trate de tornar tudo branco de novo aqui dentro. Branco mais uma vez, mesmo que seja só por sábado-domingo, e talvez esse seja precisamente o ponto que me fez ter esse tipo de desejo infantil em uma sexta-feira: saber que o branco só vai durar mesmo dois dias.

terça-feira, 17 de janeiro de 2012

Explosões

Me colocar naquela situação foi cruelmente doce. Foram dias ensolarados pelas ruas que já me matavam de saudades, dias que passei me preparando pra sentir ausências e angústias no momento em que fosse embora de lá. Foram tantas demoras e partidas, como se as chegadas jamais fossem suficientes; o coração ia apertando a cada dia e hoje no lugar dele tem um vazio que eu talvez já tenha começado a preencher com aquelas velhas coisas que... É como se eu estivesse novamente estático, da mesma maneira que eu estava antes de ir. E isso é inacreditável porque depois de tantas voltas e explosões, como é importante entender a intensidade dessa palavra, explosões dessas de revirar tudo e bagunçar e congelar estômagos e cabeças... Depois de tantas explosões, eu não posso ter voltado pro mesmo lugar. Mesmo que essa cidade quente de uma maneira diametralmente diferente daquela outra cidade quente represente mesmo essa monotonia, eu preciso estar diferente depois de tudo. Mesmo que parado, apático, pelo menos com as coisas aqui dentro reconfiguradas. Com novas razões pra ouvir Bossa Nova e novas maneiras de entender poesia. Aquele show do Chico Buarque aconteceu pra me provar justamente isso, que a cabeça pode desanuviar, que talvez a mão já esteja calejada demais pra continuar socando o prego over and over again. E em seguida veio a embriaguez, nunca me senti tão lúcido, tão pleno. Na verdade, era como se um plano traçado durante toda uma existência, quem sabe a sua existência pra mim?, culminasse ali, e culminou. Culminou na areia, com o morro do Cantagalo parecendo uma peça de natal com todas aquelas luzinhas. Foi ali, precisamente naquele momento, que eu acreditei que as explosões poderiam começar. E elas não pararam, sempre tem pólvora nova e seca pra causar deformidades, que não necessariamente tornam as coisas piores do que estavam antes, compreende? E mudanças sempre trazem novas perspectivas, principalmente quando o que muda é o de dentro da gente. E perspectiva, como todo mundo já está cansado de saber, deságua em frustração. 

segunda-feira, 16 de janeiro de 2012

No Disappointments

Foram alguns anos de sonhos. E quando permitimos que os sonhos corram assim, livres, eles voam para os lugares mais bonitos. O que eu quero dizer é que quando a realidade está bloqueada pelos seus mistérios e pela minha própria ignorância, ela não consegue prendê-los, os sonhos. A realidade, na verdade, se converteu em sonho a partir do momento que eu comecei a construí-la. Construí com tanto cuidado e com tanta delicadeza que achava difícil as praias serem assim mesmo tão claras ou os sorrisos tão verdadeiros.
Toda idealização será castigada, diz a razão. Mas, não. As cores não foram mais opacas naquela noite em Ipanema. Todo o mistério do antes, os véus que eu tirava e descobria aos poucos me arrancavam não só suspiros, mas sorrisos e medos também. Porque quando as coisas são bonitas desse jeito, a possibilidade de deixá-las escapar nos aterroriza. Eu segurei o osso como um cachorro faminto, mesmo sem saber exatamente o gosto que ele teria.
Ironicamente, foi durante aquela noite em Ipanema que eu acordei do sonho. Na verdade, foi durante aquela noite em Ipanema que eu percebi que o sonho pode ser realidade. Que não necessariamente o concreto precisa ser aquela coisa cinza, dura e fria que a gente acabou se acostumando. Pode ser que os pés molhados de mar, as mãos sujas de areia e o sol nascendo atrás da gente também sejam verdade. Mesmo que só por cinco dias, nos foi permitido acreditar nisso. 
As cores da realidade durante esses cinco dias foram mesmo intensas, tão intensas quanto nos sonhos. No disappointments. E como isso tem sentido em uma existência como a minha, como acreditar me torna mais forte e como isso tudo foi a minha maior motivação pra simplesmente continuar acreditando. E mesmo quando os dias de sol na praia davam lugar às paredes de um prédio na zona sul, as explosões continuavam e os sorrisos permaneciam ali congelados e me aquecendo. Amanhã eu entro em um avião que me leva de volta pra rotina, pros problemas, que vai me levar pra longe do mar e do nascer do sol. Mas uma coisa a gente não perde, essa capacidade de continuar sonhando, entende? E esses dias de sol me provaram que o sonho que a gente constrói pode muito bem ser de verdade. A gente só precisa dar o espaço devido aqui dentro pra que eles possam crescer.

quarta-feira, 16 de novembro de 2011