segunda-feira, 28 de outubro de 2013

Amarelo-sorriso

Nas últimas semanas,... Não, nos últimos meses, as pessoas vêm me perguntando recorrentemente se "está tudo bem". Não que elas realmente se importem, mas preciso lidar diariamente com uma das características que eu mais gostaria de mudar em mim, a transparência. Também recorrentemente tenho pensado que não consigo mesmo esconder qualquer tipo de náusea ou dor, não sou capaz de oferecer mais que um sorriso amarelo pra quem me estende a mão. Acho que a boca fala mais que os olhos. Consigo facilmente estampar toda a felicidade que não existe com os olhos e ironicamente não consigo sorrir com a boca. No máximo, dentes amarelos expostos, forçadamente, como um ritual supersticioso tentando em agonia convencer as pessoas de sua eficácia e legitimidade. 
Talvez por isso essa coisa de sempre ver o copo meio vazio. Talvez por isso essa incredulidade em mim e nos lugares aos quais posso chegar. É possível que seja mais fácil mesmo me sabotar e destruir um pouquinho de cada vez pra ao menos dar algum sentido para os sorrisos amarelos e pro simulacro de felicidade nos olhos. Indo mais fundo, talvez criar esses sentidos que tentariam legitimar tanta dor seja bastante eficiente em ocultar as verdades escondidas que não tenho coragem de encarar. As verdades que me fizeram ter as coisas mais bonitas nas mãos e deixar que partissem, me deixando flutuar à deriva na segurança da superficialidade.
Os olhos mentem e podem encarar somente o que escolho enquadrar a partir das inclinações do meu pescoço. Mais que isso, eles acreditam no reflexo da água escura, que pinto com pequenas desilusões, mas cujo real conteúdo esconde os monstros mais aterrorizantes. A boca, não. Mesmo calada, tem muito a dizer; mesmo quando ensaia um sorriso, não consegue esconder aquele tom amarelado, seja pelos cigarros, seja pela dor.

terça-feira, 5 de março de 2013

Talvez eu já sinta falta do que tenho tanto medo de sentir falta. Pode ser que isso não se perca naquela cidade cinza ou em qualquer outro lugar, mas já esteja perdido, irrecuperável, no passado.

terça-feira, 27 de novembro de 2012

Sempre tive muita dificuldade de aceitar minha condição de sagitariano com ascendente em sagitário. Digo isso porque a vida já me deu grandes possibilidades de aventuras e a minha resposta sempre foi uma só: saudade. Saudade de casa, das velhas pessoas e do aconchego. O esperado do bom sagitariano seria romper com essas âncoras do lar e ganhar o mundo, sentir todos os cheiros, os gostos e voar livre e sem destino por aí. Isso me incomoda. Sempre incomodou.
Na realidade, esses dias concluí que sou, no final das contas, um apaixonado. Apaixonado como só um sagitariano com ascendente em sagitário poderia ser. Que culpa eu tenho se acho que os melhores gostos, cheiros e pessoas estão bem aqui na minha mão? Acredito que os sagitarianos normais procuram sentir o sangue nas veias com coisas diferentes, pousando indiferentes aqui e ali. O ascendente em sagitário, por outro lado, nos torna amantes intensos das coisas a ponto de não precisarmos deixá-las pra sentir o seu calor.
Por isso, o amor não vale muito sem paixão. Como sagitariano com ascendente em sagitário, preciso de olho no olho, toque, sacanagem e surpresas. Preciso de tesão e o novo nem sempre surpreende, quase nunca é melhor. Acho que o que supera mesmo as nossas expectativas é quando o inusitado vem dos lugares que a gente já conhece tão bem que nem espera mais esse tipo de coisa. Do novo a gente não sabe o que esperar e acaba sempre querendo mais e melhor. É a velha história, too many fucking expectations, too many fucking disappointments.
Pro azar dos sagitarianos com ascendente em sagitário, nem sempre as nossas antigas pessoas são fonte inesgotável de olho no olho, toque, sacanagem e surpresas. Nosso sangue continua fervendo pelas mesmas coisas, mas o calor por vezes não consegue chegar ao outro. O fogo que a gente insiste em cultivar não faz muito sentido pra quem é diferente e a cada investida negada, a cada brilho que não emociona, a cada gota de esperma derramada feito algo desimportante, o sagitariano com ascendente em sagitário morre um pouco. Poderia passar a vida reinventando o de sempre, mas conviver com o frio congelante que se apodera aos poucos do espaço entre dois corpos é impossível. Sei lá, só sei que é preciso paixão.

segunda-feira, 8 de outubro de 2012

O tempo das coisas


Engraçado olhar fotos antigas e perceber o tempo que faz das coisas. No fim das contas, o tempo é mesmo mais uma percepção do que voltas dos ponteiros no relógio ou folhas arrancadas do calendário. E pra mim, você faz muito tempo, mesmo que na verdade nem seja tanto assim. É que eu sorria nas fotos que me encaravam nessa madrugada de domingo e isso me fez perceber que faz tanto tempo de tanta coisa, por mais que as voltas no relógio nem tenham sido assim exageradamente demoradas e as folhas do calendário não tenham virado tantas vezes quanto eu imaginava. Isso tudo porque você foi bom. Você é bom. As coisas e as pessoas têm de ser boas pra transformar esse tempo pouco, esse tempo pobre, em um tempo grande de perder a conta e o fôlego, em uma saudade assim triste e bonita. E isso que é, isso que foi você, e foi no momento exato, logo depois que eu joguei aquela folha de ontem do calendário no lixo e bem quando os ponteiros se separaram formando o ângulo preciso que o sorriso se abriu. Foi isso que me aconselharam deixar guardado no bolso, mas, que eu penso, preciso me desfazer, jogar fora, exorcizar. Menos em momentos como agora, nas horas que eu sorrio de volta pras fotos que sorriem pra mim e me dão vontade de sorrir um pouco mais em retorno. Agora, a vontade é ficar assim sorrindo e quem sabe ligar, comprar um presente, escrever qualquer coisa pra alguém saber que eu me importo, e o quanto. Me importo tanto quanto o tempo que faz de você e de tanta coisa que era nossa, ou que eu quis e entendi que era nossa, mesmo que tenha sido só minha. Nesse caso, eu te daria o que fosse meu e roubaria o que fosse teu pra transformar naquilo que me enche dessa coisa misteriosa que tá aqui-agora tão presente no quarto cheio dessa madrugada de domingo, isso que eu sinto o cheiro e quase consigo tocar no ar, isso que de tanta, mas tanta saudade e tanto, mas tanto sorriso, parece tanto, mas tanto tempo.

terça-feira, 25 de setembro de 2012

Eyes don't see, hearts don't feel



Já disseram antes e em algumas linhas bonitas que amar é conseguir ver e desamar é não enxergar mais. Foi tanto dissabor que o que resta é acreditar nessa capacidade da gente de tentar fazer as coisas. Tentar chegar lá. Você costuma dizer que eu não tenho fé, mas acho que é precisamente o oposto. Tenho tanta fé que não preciso depositá-la nos seus orixás ou espíritos de luz. Ela está toda em mim. Já disse várias vezes sobre como esse amor transbordando é meu e só meu e você se apossou um pouco sem o meu consentimento.  E é sobre essa possibilidade de amar e desamar que eu queria te falar.
Como talvez em determinada circunstância, depois de tanto tempo... Olhei sem querer o calendário agora e percebi que logo hoje o tanto tempo se tornou dois anos e sete meses de nós, e a gente já nem se dá conta. Pois é tanta experiência acumulada, a antítese dos sentimentos, os maiores sorrisos e as lágrimas mais amargas que a gente já vê e conhece tudo. E se conseguir enxergar for exatamente o que já não permite mais amar? Se essa precisão cirúrgica no olhar, essa lente de aumento, mostrar o lado escuro de nós? Quem sabe a distância impossível, depois de tanto tempo e tantos nós, fosse o melhor?
Pensando nisso, voltei à minha fé, à minha crença inabalável em mim e escolhi me entregar de novo. Escolhi fechar os olhos e pular nos teus braços como antes. Agora que nós abrimos mão do mundo inteiro, o que nos resta senão a felicidade? Quando todas as telas e todas as bocas berrarem, é a tua voz que eu quero ouvir. É uma escolha, mas não acho que se trate tanto assim de ver ou não ver. É algo mais profundo, é aquele desespero que grita durante todas as noites insones atordoadas por pílulas brancas, a tentativa, a escolha da felicidade.

domingo, 8 de abril de 2012

Sobre respingos e um herói

Aquele momento na hora do porre em que todos os fluidos misturados no estômago querem ganhar a liberdade novamente. Mas você precisa mantê-los ali pelo menos até conseguir chegar a um lugar seguro, onde os pedaços grossos do vômito caindo no chão não respinguem pra sujar a sua cara estragada por todas essas noites desesperadas.
Você sente medo. É preciso segurar os líquidos aqui dentro, contidos até o momento exato. Só que eles começam a apodrecer e a cheirar mal, afinal dentro do seu de dentro não é precisamente o lugar mais limpo e claro do mundo. São tantas mágoas afogadas em tantas bebidas fortes e tantos cigarros que aquilo tudo vira uma ferida infeccionada e a dor é difícil de segurar. Você precisa colocar tudo isso pra fora. 
Só que tem aquilo, os pingos. É como se no momento eu estivesse sentindo essa vertigem em frente a um espelho e ceder às tentações da náusea iria jogar o vômito todo na minha própria cara.
É preciso esperar. Esperar o momento exato, quando tudo estiver limpo e a distância não for mais entre nós dois, mas seja entre mim e mim. Só que é irônico como ao mesmo tempo em que eu espero a sua mão pra segurar a minha cabeça na privada imunda, também imagino o nojo que você vai sentir. O seu desprezo me apavora e eu chego a pensar que se for pro nosso bem, eu seria mesmo capaz de segurar esse vômito aqui dentro pra sempre e deixá-lo apodrecer e me corroer e se tornar tumor e me matar. Se isso for te fazer feliz, eu consigo. 
Consigo aceitar que você transfira os seus próprios fluidos odorosos pela minha boca, garganta e os deposite escondidos naqueles lugares lá dentro que eu penso em nunca te mostrar, por mais que me matem. Parece virtuoso colocado dessa maneira, e eu acho que de fato é. Agora as noites insones estão acabando e eu já começo a me perguntar até quando vou conseguir brincar de herói pra salvar a gente de ti.

quinta-feira, 5 de abril de 2012

Samsara


Samsara pode ser descrito como o fluxo incessante de renascimentos através dos mundos.
Na maioria das tradições filosóficas da Índia, incluindo o Hinduísmo, o Budismo e o Jainismo, o ciclo de morte e renascimento é encarado como um fato natural. Esses sistemas diferem, entretanto, na terminologia com que descrevem o processo e na forma como o interpretam. A maioria das tradições observa o Samsara de forma negativa, uma condição a ser superada. Por exemplo, na escola Advaita de Vedanta hindu, o Samsara é visto como a ignorância do verdadeiro eu, Brahman, e sua alma é levada a crer na realidade do mundo temporal e fenomenal.
Já algumas adaptações dessas tradições identificam o Samsara (ou sa sâra, lit. "seu caminho") como uma simples metáfora.
No vedanta e na maioria das diversas tradições hindus que se fundamentam no Vedanta, o ciclo de transmigração da alma, ou samsara, não é feito exclusivamente do passado para o presente, numa temporalidade linear como a concebida pela cosmologia Ocidental. O ciclo pode se deslocar para qualquer posição no espiral do tempo e, de acordo com as diferentes inferências feitas pelos sábios, em quaisquer Brahmandas, ou universos da criação material, e em quaisquer tipos de corpos, entre as 8,4 milhões de espécies transmigráveis, podendo haver evolução ontogênica ou filogência, nos dois sentidos: elevação e degradação; de semi-deus a larva, de planta a ser humano, e vice-versa. De fato, as possibilidades de transmigração são infinitas.

Samsara como metáfora psicológica
À parte da cosmologia e mitologia tradicional de renascimento do corpo físico no budismo também pode-se compreender este ensinamento como o ciclo de morte e renascimento da consciência de uma mesma pessoa. Momentos de distração, anseios e emoções destrutivas são momentos em que a consciência morre para despertar em seguida em momentos de atenção, compreensão e lucidez. Nesta visão os agregados impuros, skandhas, são levados a diante para o momento seguinte em que a consciência toma uma nova forma.
A meditação budista ensina que por meio de cuidadosa observação da mente é possivel ver a consciência como sendo uma sequência de momentos conscientes ao invés de um contínuo de auto-consciência. Cada momento é a experiência de um estado mental específico: um pensamento, uma memória, uma sensação, uma percepção. Um estado mental nasce, existe e, sendo impermanente, cessa dando lugar ao próximo estado mental que surgir. Assim a consciência de um ser senciente pode ser entendida como uma série contínua de nascimentos e mortes destes estados mentais. Neste contexto o renascimento é simplesmente a persistência deste processo.
Esta explicação do renascimento como um ciclo de consciência é consistente com os demais conceitos budistas, como anicca (impermanência), dukkha (insafistatoriedade), anatta(ausência de identidade) e é possivel entender o conceito de karma como um elo de causa e consquências destes estados mentais.

quinta-feira, 29 de março de 2012

Let it go

As noites estão cada vez mais difíceis. 
Eu poderia começar uma lista interminável de lamentações, mas acho que tudo acaba ficando pequeno perto dessa espera que não acaba nunca. Eu espero por um sinal que me faça acreditar mais uma vez que tenho alguma relevância. De repente, é como se todas as armas que eu sempre pensei que me fizessem forte tivessem virado baladeiras nas mãos de uma criança impotente. Pedrinhas pra vencer esse monstro que vem me destruindo dia após dia, arrancando dolorosamente todas as lágrimas que eu tenho e em vão. 
Não faz efeito. E lá dentro, eu já me dei conta disso. Só não quero enxergar. Porque só quem já está derrotado implora como tenho implorado. Comecei a barganhar as coisas mais simples, um aviso de chegada, um sinal de vida. Já não há mais dignidade, meu orgulho escorreu entre os dedos que eu tenho afrouxado pra te deixar mais solto, tudo como você quer pra eu te manter aqui. Onde? Não sei. Você não está mais por perto. Não quer estar. 
É como se aquela meia dúzia de fotos com rostos estranhos que nós teimamos em colocar no nosso meio tivessem mais importância. Gritar pro mundo os lugares que você tem espalhado os seus cheiros parece ridiculamente precioso, é como se você precisasse de atenção, justamente essa atenção que eu tenho, ironicamente, implorado pra dar.
Porque não são aquelas fotos que acompanham cada decolagem e pouso naquele site desafiadoramente complicado. Elas não mandam mensagens duas, três, quatro vezes porque, afinal de contas, pode ser que as primeiras não tenham chegado, sabe como é a operadora. Mas não há resposta. Você aparece, vez por outra, mas não é pra mim. É praqueles rostos famintos naquelas fotos pequeninas.
Sou centauro, você sabe que eu sempre fui. Não pense que não compreendo esses sinais, anseios de liberdade e aventuras. Mas não consigo te deixar solto. Os dedos estão entreabertos, mas ainda seguram meu desejo e tentam desesperadamente mantê-lo a uma distância segura.

sexta-feira, 3 de fevereiro de 2012

Segunda sexta

Uma sexta-feira sequer é dia de pensar em grandes mudanças estimuladas por resoluções que martelaram nas nossas cabeças a semana inteira, o mês inteiro, o ano passado inteiro, uma existência inteira. Mas hoje tá com uma cara danada de segunda nesse sentido, e eu só consigo pensar em terminar de editar esse vídeo e sair pra ver o sol, passear por dentro da tarde, por baixo das árvores e por cima dessas marteladas todas. 
Queria algum lugar perto do mar, lugar-comum assim mesmo, mas falar sobre sol e mar a essa altura vai me levar para lugares perigosos de onde preciso fugir pelo menos até a próxima semana, ou, quem sabe, até a próxima existência. 
Queria ver o sol e entrar em alguma livraria como aquelas em Notting Hill, onde a gente se perde no meio de tantos títulos, autores e prateleiras, e pode escolher qualquer coisa porque tudo não passa de cinco, dez libras, é isso mesmo, queria escolher um livro bem bonito e colorido e... E novo! Completamente novo, um livro que me mostrasse coisas e pessoas que eu nunca sequer ouvi falar e acabe com as marteladas. Um livro diferente dos outros que se acumulam inúteis no meu quarto, que rode tão rápido e que seja tão colorido que trate de tornar tudo branco de novo aqui dentro. Branco mais uma vez, mesmo que seja só por sábado-domingo, e talvez esse seja precisamente o ponto que me fez ter esse tipo de desejo infantil em uma sexta-feira: saber que o branco só vai durar mesmo dois dias.

terça-feira, 17 de janeiro de 2012

Explosões

Me colocar naquela situação foi cruelmente doce. Foram dias ensolarados pelas ruas que já me matavam de saudades, dias que passei me preparando pra sentir ausências e angústias no momento em que fosse embora de lá. Foram tantas demoras e partidas, como se as chegadas jamais fossem suficientes; o coração ia apertando a cada dia e hoje no lugar dele tem um vazio que eu talvez já tenha começado a preencher com aquelas velhas coisas que... É como se eu estivesse novamente estático, da mesma maneira que eu estava antes de ir. E isso é inacreditável porque depois de tantas voltas e explosões, como é importante entender a intensidade dessa palavra, explosões dessas de revirar tudo e bagunçar e congelar estômagos e cabeças... Depois de tantas explosões, eu não posso ter voltado pro mesmo lugar. Mesmo que essa cidade quente de uma maneira diametralmente diferente daquela outra cidade quente represente mesmo essa monotonia, eu preciso estar diferente depois de tudo. Mesmo que parado, apático, pelo menos com as coisas aqui dentro reconfiguradas. Com novas razões pra ouvir Bossa Nova e novas maneiras de entender poesia. Aquele show do Chico Buarque aconteceu pra me provar justamente isso, que a cabeça pode desanuviar, que talvez a mão já esteja calejada demais pra continuar socando o prego over and over again. E em seguida veio a embriaguez, nunca me senti tão lúcido, tão pleno. Na verdade, era como se um plano traçado durante toda uma existência, quem sabe a sua existência pra mim?, culminasse ali, e culminou. Culminou na areia, com o morro do Cantagalo parecendo uma peça de natal com todas aquelas luzinhas. Foi ali, precisamente naquele momento, que eu acreditei que as explosões poderiam começar. E elas não pararam, sempre tem pólvora nova e seca pra causar deformidades, que não necessariamente tornam as coisas piores do que estavam antes, compreende? E mudanças sempre trazem novas perspectivas, principalmente quando o que muda é o de dentro da gente. E perspectiva, como todo mundo já está cansado de saber, deságua em frustração. 

segunda-feira, 16 de janeiro de 2012

No Disappointments

Foram alguns anos de sonhos. E quando permitimos que os sonhos corram assim, livres, eles voam para os lugares mais bonitos. O que eu quero dizer é que quando a realidade está bloqueada pelos seus mistérios e pela minha própria ignorância, ela não consegue prendê-los, os sonhos. A realidade, na verdade, se converteu em sonho a partir do momento que eu comecei a construí-la. Construí com tanto cuidado e com tanta delicadeza que achava difícil as praias serem assim mesmo tão claras ou os sorrisos tão verdadeiros.
Toda idealização será castigada, diz a razão. Mas, não. As cores não foram mais opacas naquela noite em Ipanema. Todo o mistério do antes, os véus que eu tirava e descobria aos poucos me arrancavam não só suspiros, mas sorrisos e medos também. Porque quando as coisas são bonitas desse jeito, a possibilidade de deixá-las escapar nos aterroriza. Eu segurei o osso como um cachorro faminto, mesmo sem saber exatamente o gosto que ele teria.
Ironicamente, foi durante aquela noite em Ipanema que eu acordei do sonho. Na verdade, foi durante aquela noite em Ipanema que eu percebi que o sonho pode ser realidade. Que não necessariamente o concreto precisa ser aquela coisa cinza, dura e fria que a gente acabou se acostumando. Pode ser que os pés molhados de mar, as mãos sujas de areia e o sol nascendo atrás da gente também sejam verdade. Mesmo que só por cinco dias, nos foi permitido acreditar nisso. 
As cores da realidade durante esses cinco dias foram mesmo intensas, tão intensas quanto nos sonhos. No disappointments. E como isso tem sentido em uma existência como a minha, como acreditar me torna mais forte e como isso tudo foi a minha maior motivação pra simplesmente continuar acreditando. E mesmo quando os dias de sol na praia davam lugar às paredes de um prédio na zona sul, as explosões continuavam e os sorrisos permaneciam ali congelados e me aquecendo. Amanhã eu entro em um avião que me leva de volta pra rotina, pros problemas, que vai me levar pra longe do mar e do nascer do sol. Mas uma coisa a gente não perde, essa capacidade de continuar sonhando, entende? E esses dias de sol me provaram que o sonho que a gente constrói pode muito bem ser de verdade. A gente só precisa dar o espaço devido aqui dentro pra que eles possam crescer.

quarta-feira, 16 de novembro de 2011

terça-feira, 8 de novembro de 2011

Só o Chico

Por mais que algumas vezes, ou quase sempre, eu reme contra, a vida tem dado um jeito de trazer dias de sol pra cá. Olha que lugar-comum eu vou falar agora, mas é isso mesmo, é nas pequenas coisas que a gente consegue se apoiar e quando se dá conta, está quase de pé outra vez. Ainda meio trêmulo, caindo aqui e ali, mas caminhando com as próprias pernas.
Já reconheço que existe vida além e realmente consigo me interessar por outras casas, pessoas, comidas e assuntos. Li outro dia que o sagitariano é interessante por ler muito, ou ouvir muita música, ou ver muitos filmes, ou tudo isso ao mesmo tempo. Esse tipo de coisa ajuda a tirar a gente lá do fundo.
São pequenos encontros que de repente se tornam tão interessantes, que. Lembra quando a gente encontrou a Maria Bethânia meio bêbada no avião, ainda naquele primeiro dia, e logo em seguida, todos aqueles bárbaros tão doces cantaram Atiraste uma Pedra, e "você gosta dessa música?"? Claro que gosto, ela diz tanto... E essas pequenas descobertas são como explosões que me fazem querer conhecer mais das tuas músicas, dos teus filmes, te mostrar mais um pouco dos meus livros.
Já é possível até deixar escapar algumas confissões. Primeiro, eu não queria nem ouvir quando você disse que os novos paulistas não têm peso, eu protestei. Mas aí quando a gente compara Jeneci, Tiê, Tulipa e Roberta Sá a Caetano, Bethânia e Gal, eu até que entendi o seu lado e não que eu concordasse inteiramente, mas resolvi ficar calado porque qualquer opinião mais extremada ali seria meio burra. E como é difícil alguém conseguir me fazer ficar calado, falo isso da maneira mais positiva possível, compreende?
Daí aparece a Maria Rita e admitimos que ela não é tudo isso, mesmo sendo tudo isso algumas vezes. Vejo aquela versão e "não, ninguém pode interpretar o Chico além do Chico. E da Bethânia, mas só ela". E nesses momentos, nesses momentos pequenos, querendo se passar por desimportantes, eu percebo que me dá vontade de rir, de rir de verdade. Sem fingimento, sem olhos marejados, eu de fato quero mostrar os dentes e pensar que só o Chico pode cantar as músicas dele pra mim enquanto ganho um cafuné. 
E que bom conseguir enxergar esse tipo de coisa, que bom conseguir ver que ainda existe alguma espontaneidade e que ainda existe vontade de sorrir vez em quando. Que bom que nem tudo tá assim tão seco quanto eu imaginava.


segunda-feira, 7 de novembro de 2011

Acima da saudade, do tesão, das conversas, o que me leva mais lá no fundo é essa sensação de desamparo. Porque assistir um filme desses que te deixam sentindo indefeso e com vontade de gritar desesperadamente pra que alguém entenda o que tu estás sentindo e te dê um abraço, te faça um chá, apareça com alguma pílula ou qualquer coisa desse tipo e não ter a quem recorrer dói. 
E antes eu recorreria a ti. Ainda é o teu número que eu chego a discar no celular antes de desistir. E ele nem tá mais gravado na agenda, queria que fosse fácil do mesmo jeito tirá-lo da cabeça. É esse desamparo o que mais dói, essa sensação de não ter pra quem ligar em uma madrugada de segunda-feira depois de ver um filme daqueles. É, é isso o que mais dói.

Vai passar

"Tão longe ficou o tempo, esse, e pensarás, no tempo, naquele, e sentirás uma vontade absurda de tomar atitudes como voltar para a casa de teus avós ou teus pais ou tomar um trem para um lugar desconhecido ou telefonar para um número qualquer (e contar, contar, contar) ou escrever uma carta tão desesperada que alguém se compadeça de ti e corra a te socorrer com chás e bolos, ajeitando as cobertas à tua volta e limpando o suor frio de tua testa."


Caio F.

Inverno


No dia em que fui mais feliz, eu vi um avião. E ele não se espelhou no seu olhar até sumir. Na verdade, ele se espelhou no meu olhar, porque eu era o único par de olhos ali. O único que tinha algum sentido, eu quero dizer, porque em um aeroporto internacional de uma capital européia, a gente encontra todos os tipos de par de olhos. São azuis, arregalados, negros, puxados, sonolentos, radiantes ou encharcados de lágrimas. Mas de olhos que realmente importassem pra mim ali no meio de toda aquela gente, só mesmo os meus.
E os meus estavam embotados por uma ansiedade que eu nunca havia sentido antes. Ansiedade que me fez passar a noite em claro fantasiando o dia seguinte, o dia que você ia me receber com os braços abertos e eu ia ouvir a sua voz de novo, de novo no meu ouvido, sem telefone, computador ou qualquer máquina entre a gente. Era assim que eles estavam, os meus olhos, cansados e sonolentos pela madrugada insone, mas vidrados no avião. Aquele avião enorme que me tiraria dali e me levaria de volta pra casa. Home is where the heart is, lembra?
Eu embarquei e a sensação que eu esperava, a sensação que todos esperavam de mim era guardar com saudade aqueles lugares frios, guardar as águas termais de Budapeste, as construções milenares atenienses, guardar comigo o gosto do café e dos cigarros de Paris e as canções daqueles fins de tarde venezianos. Guardar comigo aquele crepúsculo na Piazza Spagna em Roma e a valsa vienense tocando, todos aqueles espetáculos... Eu ao menos poderia ter olhado praquilo tudo, praquele país, praquele continente inteiro e lamentado um pouquinho porque, quem sabe?, aquela poderia ser a última vez que os meus olhos embotados miravam essas coisas.
Mas não importava. Lembra que eu te fiz uma ligação logo antes de embarcar? Eu disse que tinha perdido uma conexão e que só poderia voltar na semana seguinte, mas é claro que você não acreditou. Não acreditou porque mesmo sem conseguir ver os meus olhos marotos contando mentiras, você podia ouvir a minha voz entusiasmada. E eu era inteiro felicidade. Eu não cabia em mim, aquela sensação de te ver ainda essa noite, de te abraçar e sentir o teu cheiro de novo, aquela idéia de que finalmente passaríamos mais uma noite juntos, como antigamente. Sem dar boa noite pelo computador, sem dormir te olhando através daquela tela ao lado da cama e acordar aflito no meio da noite porque a conexão com a internet caiu.
Eu vi o avião e foi ali que começou a felicidade. A partir daquele momento, eu tinha certeza que o antigamente voltaria. Embarquei e comecei a chorar no mesmo instante. Ninguém nas poltronas do meu lado, tiraram a criança italiana que não parava de chorar da fileira atrás de mim, as opções de filme eram razoáveis. Paz. O avião nem tinha deixado o solo e a minha cabeça já havia cruzado o oceano, como tantas vezes antes.
Senti frio e pensei que aquela era a última vez. A última vez que eu sentiria frio, porque logo mais... As lágrimas continuavam caindo e eu não fazia o menor esforço para cessá-las porque elas eram boas, eram de pura felicidade. Eu já estava olhando aquele velho continente de cima e logo ele começou a se afastar, o oceano estava aos meus pés, eu acompanhava na tela em frente à poltrona a distância que faltava, e era tanta, e demorou tanto, e foi tanto-tanto. Mas chegou e eu não podia acreditar, Brasil de novo, eu podia conversar e ser entendido sem maiores complicações e, meu Deus, você estava logo ali fora da sala de embarque bem do jeito que eu te deixei. Como antigamente.
Mas a fila da imigração estava impossível e as pessoas queriam conversar, mas meus olhos não se concentravam nelas, eu olhava o duty free e pensava no perfume que poderia comprar pra te agradar. Não mais um presente, já eram tantos, mas pra eu usar, porque eu queria que você gostasse do meu cheiro mais uma vez, como antigamente. Não achei o perfume, “moço, o senhor tem flores?”, não havia flores. A fila impossível, “próximo!”, era minha vez; “Bem vindo ao Brasil, senhor”. O coração disparado, dis-pa-ra-do.
Eu olhava pelo vidro e não te encontrava, meu Deus, aconteceu alguma coisa? Seu vôo atrasou? Você não estava esperando por mim,eu ficaria sozinho ali? As malas não chegavam, pedi ajuda pra funcionária da companhia, “por favor, as minhas malas”. Não havia mais bagagens nas esteiras, talvez seja uma dessas separadas aqui no canto. Era. Peguei correndo, a saída era logo ali, logo ali estava você, logo ali na saída. As lágrimas se anteciparam e chegaram antes de mim.
Mas os homens queriam revistar as minhas malas, “por que duas tão grandes , senhor?”. Foram meses fora, meses, vocês entendem?, meses sem você, meses sem tantas coisas. E foram meses de inverno, meses de neve, então é claro que são tantas malas, porque têm casacos e botas, além dos presentes, muitos presentes. Porque eu gosto de dar presentes e eram tantas as coisas que me lembravam você...
Finalmente, saí e você estava ali. A gente não precisou se olhar, a gente queria a pele, o toque, o cheiro. E foi um abraço, foi o melhor abraço da minha vida, você lembra? Posso ter milhares de reclamações sobre tudo a nosso respeito, mas a intensidade... Aquele abraço que me fez esquecer malas, computador, tudo que antes valia alguma coisa estava perdido, éramos só nós dois naquele saguão cheio. E as palavras faltaram, as mãos não sabiam onde ficar, só procuravam pelo teu corpo, pelo teu rosto. Um cigarro. Dois cigarros. No terceiro, a gente já conseguia conversar e o sorriso não saía do rosto, lembra? Como antigamente.
Você chamou o táxi. Você resolveu tudo, e isso é uma das coisas que me fez enlouquecer de amor, e você sabe perfeitamente disso. Eu não sabia de hotel, não sabia de praia, não sabia de jantar, não sabia de nada. Eu não sabia de música e nem de pétalas de rosas pela cama. Ali estava a felicidade, nesse não se importar por não saber. Mais, nesse fazer questão de não saber, nesse confiar de olhos vendados (literalmente, lembra?). Felicidade. Fe-li-ci-da-de.
A ligação pros amigos, “já estou no Brasil, aproveitem essa festa de aniversário no sítio. Divirtam-se, amo vocês. Dentro de dez dias,”. Era aquele momento, aquilo era a felicidade. Aquilo era antigamente. Aquilo foi pelo que eu vivi os últimos meses. Mas passou. Como tudo, passou. O antigamente ficou pra trás, como tinha de ser. Ainda assim, esse foi o dia em que fui mais feliz. Foi o dia em que eu vi um avião, o resgate que me levou de volta ao antigamente, me levou pra onde o meu coração estava, me levou pra casa.  

sábado, 5 de novembro de 2011

Talvez

Ontem eu entrei naquele torpor de quem bebe cerveja e escuta Chico Buarque demais. E por alguma saudade que anda incoerentemente perdida aqui dentro, afastei as cortinas negras que coloquei entre nós já há tanto tempo. Talvez nem seja assim "tanto tempo", mas o fato de já não sair mais muito sangue do corte, de ele já não estar mais quente e latejando a ponto de doer profundamente, faça com que esse tempo que passou me pareça assim, "tanto". 
Então foi assim, no meio do torpor de quem bebe cerveja e escuta Chico Buarque demais, eu afastei as cortinas negras. Esperava que elas revelassem qualquer coisa de bonito, qualquer coisa que fosse me matar de saudades, qualquer coisa que fosse abrir de novo a ferida e me causar dor até a loucura. Mas não foi assim.
Ele mudou. O que é natural, eu mesmo mudei. Me referir a ele assim, na terceira pessoa do singular, é uma das resoluções de mudança. Ontem eu li em algum lugar uma frase que dizia mais ou menos assim "tudo o que fazemos na vida é para sermos um pouco mais amados por alguém". É a mais pura verdade. Mesmo que esse amor venha de nós mesmos. É o tipo de coisa que a resolução da terceira pessoa do singular tá fazendo comigo, me ajudando a me amar um pouquinho mais. 
Mas o que eu dizia é que as cortinas negras revelaram uma pessoa diferente. Diferente em certa medida, porque eu acho que na verdade essa pessoa revelada pelas cortinas negras estava lá em algum lugar o tempo todo e eu sabia disso, só não conseguia mais ver. Porque isso é uma coisa muito clara pra mim hoje, eu via nele o que eu queria ver. Afinal, "amar era só conseguir ver, e desamar era não mais conseguir ver, entende?". E não ver aquelas coisas que possivelmente sempre estiveram ali foi uma escolha.
O ponto é que assim, afastado, eu consegui ver essas coisas. E achei sujo. 
Vi a transformação de uma pessoa. Transformação em algo que eu considero pior, mas essa opinião não vale de nada porque eu sei o tipo prepotente e dono-da-verdade que sou. Enxerguei alguém quase irreconhecível, alguém que eu talvez tenha quase conhecido ali no começo de tudo. E isso me traz mais uma impressão positiva, porque significa que ele mudou por mim. Seja lá que significado isso assuma, é uma coisa boa pra mim. E agora, eu penso mais no que é bom pra mim do que no que é bom pra qualquer outra pessoa. 
E talvez, no fim disso tudo, ele nem tenha de fato mudado, como eu suponho. Talvez o que as cortinas negras revelaram foi exatamente o que ele era desde o princípio, o que eu não enxergava e o que eu moldei. E agora ele talvez tenha voltado a ser precisamente o que sempre foi antes de eu existir. Na verdade, a pessoa que eu conheci nunca existiu, ela estava na minha cabeça e na capacidade de simulação que ele sempre teve, e em algum lugar lá no fundo, eu sempre soube disso. 
E encarando positivamente, se o objeto do amor nunca existiu, como esse amor pode ter existido? Talvez em mim, talvez esse amor tenha sido inteiro meu e eu apenas precisasse direcioná-lo a alguém. E sendo assim, ele continua aqui, pronto pra ser redirecionado quantas vezes forem necessárias, até todos os cortes pararem de sangrar, todas as dores pararem de latejar e todas as lágrimas pararem de cair.

quinta-feira, 3 de novembro de 2011

Meu despedaço,

Que despedaço era a pessoa quando vivia. E viver era a arte de encontrar, dar-de-encontro. Viver esbarrando, deixando o perfume no outro e levando o do outro na roupa. Embebedar de cheiros. Chamar a atenção puxando pelo ombro, pela nuca ou pelas mãos. Segurar firme, misturar o suor. Cair por cima do colo, dar um nó com as pernas. - Que despedaço era você em tudo. Despedaçar era arrancar um pedaço pelo outro, um pedaço seu pelo do outro. Era trocar. E conseguir porque não é assim tão simples. Que você não sabia simplesmente deixar suas partes, mas jogava por cima das pessoas, como num gesto desleixado e preguiçoso, igual quando você se atira no sofá da sala. Também não tinha cuidado de pegar as partes delas que lhe cabia, mas metia as mãos e roubava faminto. Ia colecionando pela vida des-pedaços bonitos, embora pareça feio dito assim. Que não tinha nada de ruim em deixar a cor dos teus olhos azúis pelo mundo nem roubar a transparência daqueles mares pra trazer no bolso. E que o despedaço do amor era viver e disso você entendia. 

- Das tristes Anotações sobre um amor urbano.